22.2.18

Da verdade dos anos largos.

Trocámos o abraço de todo o tempo. Demorado como a distância exigiu. Não doutrinamos a pressa. Jogamos com a solenidade da presença. Não sabia por palavras dela, o que já sentia. Guardava, singela e constrangida, para o jantar que se seguia. Neste frente-a-frente, fico a perder. Somos amigos desde tenra idade, sequer sabíamos eleger categorias de uma vida que havia de chegar. Adivinhávamos. À sorte, pela sorte. Aqui, olhos nos olhos, nesse certame que é a amizade. Ao redor, há burburinho, cabeças baixas, ora atentas ao prato, ora presas no telemóvel. Quase não damos por elas. Alongámo-nos na prosa com recheio. Matámos saudades. Cumprimos necessidades. Deixámos esfriar os pratos. Tomámos água, para não adulterar o discurso e a apreensão. E deixei-me seguir, sendo todo ouvidos, com pausas para retorquir. Neste frente-a-frente, particular e inopinado, fico a perder. Somos amigos de longa data. Dos tempos em que o meu cabelo já gritava o quão beto me guardava e em que o dela não desmentia a sua vocação para menina-princesa. Aprecio quem conversa sem desviar o olhar, atenta e convictamente. Como acontece. Apreensiva, foi soltando o que guardava para me contar. Vejo a mulher do momento e a criança do laço gigante na cabeça. Quer contar-me. E já sei. Finalmente, a coragem fez sair cada palavra. Sorri-lhe, porque não sei fazer de outra forma. Não dei falsos confortos. Compreendi e opinei. Não defendo, mas entendo. Neste frente-a-frente, sou manifestamente menor. Pelo amor que a amizade construiu, pela necessidade de protecção que não dispenso. Recuso ardilosas palestras sobre o outro. Como se as acções fossem o resultado do todo. Ou a moral uma presa fácil. Ninguém é tão autómato ou irrepreensível. Finda a noite, neste frente-a-frente, um inesperado empate. Pela hombridade com que conduz a sua vida, e eu por vê-la fincar o pé em terreno pantanoso, quando estava num passeio no parque. Mesmo sem o laço de outrora, continuas a fazedora de todas as coisas.

21.2.18

Ininterrupção de instantes.

Venho chegando, com a noite assumida, enquanto oiço Gorillaz. Esta canção tem história, prosa demorada, para outros temperos. Viro à esquerda, para encontrar o beco. Casas grandes, com jardins bonitos. Sei-os de cor, tantas as visitas. Junto ao portão escancarado, depois de estacionar o seu Mini, alguém acena, com vontade e precisão, temendo não ser vista. Devolvo, com sorriso e tudo. Procuro estacionar, mas não fico satisfeito. Saio do carro contrariado. Conjuro no desassossego mental, léxico que tem falta de maturação. Trago um presente, um vinho pomposo. Mãos ocupadas, eu na corda. Chego-me à simpatia do aceno, trocámos dois beijos – ainda sou pela dupla do verbo. E pergunta pelo que me traz ali. Afazeres, ensaiei responder. Fiz-me melhor rapaz, cumpri a verdade e procurei pela família. Todos bem, como se quer. O irmão volta em breve. Amigo de outras paragens. Agora tenho de ir, que já me faço em cima da hora. Fracos passos e toco na campainha. Vejo a luz acender, logo se faz ouvir o cão da casa. Recebe-me antes de todos. O entusiasmo de sempre. Não guardo palavras para a empatia que fixámos, eu e o pequeno animal. Pequeno com todas as comas. Passadas as brincadeiras iniciais, entrego o empolado vinho. Lembrando, entre risadas, outros bem fajutos que outrora bebericámos. Feitos todos os cumprimentos, volta a certeza de que estou sempre bem por aqui. Falta alguém, mas não resta assunto. Fica para depois. Enquanto me leva o casacão, pisca-me o olho. Devo ter esboçado uma fácies atabalhoada. Pior, só a barba demorada. Negligentemente aparada. O meu pai já nem aventa questionar. Ganho, por estar longe da vista. Servem-me a primeira taça. Grande noite se principia.

20.2.18

Tem nome de menina traquina.

A televisão na frente, fina e elegante, como se vê agora, quase novidade por ali. A estante datada, na cor da madeira bem escura. Os bibelôs a compor, a fingirem-se moldura. Os cristais imaculadamente dispostos. Aqui e acolá os afamados naperões, ora na mesa de centro, ora na mesa de apoio, também na de jantar que fica mesmo no cantinho da sala. As flores naturais, frescas e regadas, estrategicamente colocadas, para que nem o sol lhes falhe. Os sofás cobertos, com finos trapos, para impedir a destruição do tempo. Não funciona, mas tempera a ansiedade. Como o telefone, que sossega sobre uma das já faladas rendas. Com números grandes, para afugentar a vista desgastada e antecipar a chamada. Reserva-o para a filha que vive longe e para uma situação descontrolada. A filha, os netos e outros que lhe marcam a memória, vestem as molduras. Várias, variadas. Cada uma da sua nação, mas não faz confusão. Numa, o marido. Paixão da juventude, amor da vida inteira. Não rasgou nem uma fotografia dele. Trá-lo para aquele espaço e isso conforta, conforta-a. Foram anos sem conta. Dormiram juntos mais do que souberam o que era não partilhar o leito. Ainda ruboriza, quando pensa na primeira. E sorri. Nas costas, quase colado ao sofá comprido, um espelho grande. Reflecte tudo. Até o cume do seu cabelo bem penteado. Aquece-se com um lenço nada trivial. A alma afaga-a com a leitura. Aprendeu tarde, mas guardou para que não a largue até ao último dos seus dias. Prefere histórias reais, biografias. Na frente, a televisão, fina e elegante, como se vê por aí, recém-chegada aqui. Fixa os olhos na dita, abre a boca para ensaiar o discurso, mas perde-se. Larga-se num pranto, que foi bem mais rápido, roubando-lhe as palavras. Já na noite anterior havia ficado atónita, a observar. A violência nas ruas. A inquietude que parece não ter termo. A gratuitidade com que se desiguala o outro. Fixa os olhos, pejados de lágrimas, esquece-se de recompor o rosto molhado e deixa fugir que é uma dor. Física e espiritual. E não desminto, é pernicioso. Agradeci-lhe a visita, poder sentar-me e trocar uma prosa que foi uma delícia. Hei-de voltar. Vou voltar. Que promessa feita, não tem como não ser cumprida. Um beijo grande e boas leituras.

19.2.18

Qualidade vacilante.

Lá fora, enquanto atravessava a rua, cruzei-me com um autocarro quase vazio. Uma senhora, com ar pendente, esboçava movimentos com a boca. E a mão fingia garatujas no ar. Devia levar uma conversa governada de interesse com o senhor condutor. Toca o telemóvel e a dúvida absorve uns quantos. As massas a funcionar com as maçãs. Soa e somos o mesmo. Estou numa espécie de fila – um tanto desordenada, outro tanto desordeira - num lugar cansado, cujo ar está saturado, com o meu casaco comprido, aos quadrados desenhado, os óculos graduados colocados, os de sol na gola dobrada do casaco de malha grossa presos. Desliguei a chamada há instantes, a minha irmã mais nova a trazer novidades, no seu discurso sempre vestido de pressa, genuíno e de menina travessa. Entre pensamentos, reparo na senhora que está ao meu lado. Quase inerte, numa apneia que me permiti diagnosticar. O olhar, quase baço de admiração, está focado - pasme-se - nas minhas meias. Ou peúgas. Conforme a nação de cada um. Perco-me, com alguma facilidade, nas nomenclaturas. Nisto, arqueio a sobrancelha, como se fosse tipo para esse ensaio. Levo, instintiva e imediatamente, os olhos às ditas. E rio-me. De mim e para mim. Espreitam, dinâmicas e de humor comedido, entre o que trago calçado e a dobra das calças. Não são as mais atrevidas que tenho, quis contar-lhe – à senhora, claro – mas fiquei tímido. São mesmo triviais, talvez a cor lhes torne especiais. Enfim, os nossos olhares cruzaram-se. E chega, na minha direcção, vinda do fundo da neblina que são aqueles olhos, a estupefacção. Fiquei na dúvida, tratar-se-ia de vergonha por eu ter percebido o delito ou, cheia de verdades sobre a arte de bem trajar reprovou as minhas sossegadas meias. Ou peúgas. Assim levei a manhã, numa ambiguidade sem precedentes.

1.2.18

Fenómeno da absorção.

Não fui de subir aos telhados, porventura, vítima das vertigens que me assaltam, ainda os metros não são excessivos. Ou por puro aborrecimento. Ainda me fiz afoito, jogando à sorte. Pisando cadeiras, parapeitos de janela, afiançando o equilíbrio numa varanda mais robusta. Como se houvesse esperança. De arribar do solo e, num pulo, chegar a uma estrela. Nunca aconteceu. Enfim, por me ver próximo de casas que não o permitiam. Ainda que na alienação mental dos tempos de garoto. Embora, um endiabrado somente nas horas vagas. Tão singelo. Mesmo assim, não perdoei muros largos e altos. Entre arbustos. Com compinchas a amparar o pé. Corríamos sem pensar. Atrevíamo-nos na escalada desamparada. Hoje modero as ânsias. Não esqueço as traquinices. Há pouco, numa rua gira, com prédios altos e alguns recuperados, no cume do maior, estão várias janelas deitadas sobre o telhado. Numa, um gato que enfeitiça. Pela beleza exuberante e arrogância castiça. Logo volvi uns anos. Começo da idade adulta, em casa de uns amigos, onde as águas-furtadas eram ponto de encontro. Para o palreio sem censura, para o acumular das traquitanas do dia-a-dia. Dos romances dignos de apneia aos desamores de prender a circulação nas veias. Compensando todas as parvoeiras. Numa estada sempre apreciada. E víamos passar. Com toda a desatenção, com todo o vagar. Até as vertigens não ganhavam lugar. Guardo saudades. A ironia vence sempre. Mesmo que não a saibam ler. Nunca fui de subir aos telhados, na ignorância feliz de me saber lá. Agarrado às vertigens sem ocupação. E hoje não é diferente. Estou onde me permito. E, não desminto, há dias em que me limito. Mesmo que esteja com os pés em terra firme.

31.1.18

Prosa do acaso.

O compromisso entre o sotaque e o sorriso largo atribui-lhe qualidades que não são sem vigor. Chega de cabelos bem desenhados, num cinza e branco bem combinados, e acena com os olhos. São claros. O corpo é pequeno, magro, mas tem trejeitos de fazedora de assuntos pesados. Os óculos graduados pendem peito abaixo, fingindo-se seguros por um frio encarnado. No tom do que traz calçado. O casaco comprido, para lá dos joelhos, dá-lhe um ar polido. Anda, mas parece que balança. Dá saltos breves e divertidos. É singela no passo. Pergunta-me se pode tomar-me com um abraço. Devolvi-lhe com o acto. E foi simpático, sensato e sossegado. Apresento-me e diz-se conhecedora do que venho fazendo. Fiz, corrijo. E sorri. Conhece-me pela prosa de outros que lhe foi chegando. Embora, tenhamos tido vínculo com a mesma empresa, fez-se em tempos desfasados. Jamais houve oportunidade de nos cruzarmos. Já gosto de si, atirou. E eu dela, genuinamente. Encaminhou-me e levou-me para o que reconheço como um jardim de inverno. Uma estrutura cosida a vidro, ligada a ferro escuro. A luz entra sem remorsos. Faça chuva ou sol. Água miúda ou desgovernada. Calor trivial ou descomunal. À volta, flores várias, variadas e nada resignadas. Pelo contrário, feitas de vida. Por fim, sentamo-nos numas cadeiras grandes de braços, estofadas com um tecido que imita o verde da mostarda. Daí, seguimos o trajecto da conversa bem temperada. Algures, entre elogios sinceros e ambições um tanto certeiras, outro tanto lunáticas, reiterou que entende as mudanças. A minha inclusivamente. É o desassossego dos dias que promove e renova o que há-de vir. Nisto, passaram tantas horas. Sem que houvéssemos pestanejado. Tanto que me vi atrasado. Agradeci sem fim. Vamos ter tempo para criar. Devolve o primeiro abraço, agora envolvidos pelo casulo de inverno. Levou-me, nos seus saltinhos característicos, até ao carro. E acenou com os olhos. Vestindo o sorriso largo.

30.1.18

Não adianta retirar em debandada.

Sentámo-nos na relva bonita, sobre as pernas trocadas. Desafiando a agilidade, temendo desarticular as articulações. Mas tudo bem. Sentámo-nos sem preceito, mas de feição. Com o sol a ferver no rosto, a queimar a pele um tanto franzida, a melindrar os olhos e a afagar os corpos inertes. Mas tudo bem. Sentámo-nos sobre a relva húmida, quase molhada, com os nossos melhores jeans. E eu, imaturo, com os meus mais recentes ténis. Mas tudo bem. Fixámo-nos, ora nos nossos rostos, ora em pontos menos fortes. Às vezes certos, outras feridos pela luz certa e pela miopia dos nossos dias. Mas tudo bem. Falámos sobre as nossas vontades, os nossos projectos e as nossas trivialidades. Ainda dos nossos defeitos e das nossas trôpegas acções. Mas tudo bem. Rimo-nos de felicidade, de lágrimas livres e de estômago aflito. Do presente e do que se fez passado. Mesmo que tenha sido pesado. Mas tudo bem. Pegámos na máquina fotográfica analógica e inventámos os movimentos, as caras e os desenhos. Soubemos depois, ficámos saudavelmente ridículos, caricatos num bom par das fotografias. Mas tudo bem. Decidimos o que havia de ser o jantar, o lugar e o vagar. Desistimos por amor aos nossos, recém-chegados e ansiosos por largarem num frenético discurso, discorrendo sem paragens. E monopolizando o ecrã com os milhares de fotografias que vêm para recordação. Mas tudo bem. Se o nosso destino for, entre outros, também este, encontrámos a comparação do clima. E só pode estar tudo bem.