11.10.17

Em diferido. #60

O puto do skate e as marcas contadas - Passou por mim um puto sobre a tábua. Um boné todo porreiro, num encarnado sangue, envolvido por um verde seco. Uma pala à maneira, na cabeça bem seguro e direito, contra o estágio de outros tempos, em que o dito seguia de esguelha. Um boné que por estes dias ganhou outro nome, pelo menos foi assim que me foi contado. Passou por mim, ainda cedo, um puto sobre uma tábua bem estilizada. Seguia seguro e bastava olhá-lo para senti-lo confiante das suas acrobacias. As rodas queimavam o asfalto. O barulho típico do material a fazer das suas, o puto com um sorriso rasgado. Torneando as linhas, seguiu nessa trivial actividade, com a tábua bonita. Sob os pés enfiados nuns VANS todos rebentados. Lembro-me de pensar, lá atrás, que essas eram as marcas físicas e visíveis que faziam falta. Que davam liberdade e individualidade. Analogia aos velhos que me rodeavam e que, cheios de marcas no rosto, no corpo, tinham as mais atraentes e dinâmicas estórias. E partilhavam-nas com gosto e empenho. Corri o mundo sentado sobre as pernas cruzadas, num chão bonito e trabalhado, ao ouvi-los prosear. Numa cadeira de orelhas ou num sofá datado. Envolvidos por quadros bonitos com molduras douradas, prateadas e de madeira bonita. Também num quintal coberto de cimento, envolvido por vasos aleatórios cheios de flores coloridas e roupas num canto a secar. Os meus olhos largavam num deslumbre escarrapachado. Que não mentia: estava interessado. Guardei essas conversas com a mesma convicção – porventura mais – com que guardei, na altura, uns ténis. Vem de longe a minha paixão. Usei-os até vê-los ultrajar com insulto aviltante a minha mãe. Chegou o ultimato: era o fim. Não me lembro se chorei, mas fiquei irritado. Eram a minha companhia, repetida, bem sei, mas eram. Com eles, se a memória não me falha, lancei-me numa queda de bicicleta que podia ter causado estragos sérios. No dia seguinte lembrei-me de um desses velhos que me ensinaram. O que lá vai, lá vai. Aceitá-lo é mais fácil do que martirizar o espírito. Não são palavras vazias. Atentemos na intensidade. O puto parou, repentinamente, e ficou com a tábua hirta nas mãos. Equilibrou o boné encarnado e verde seco. Os ténis ganharam mais uma para contar. Serviram, uma vez mais, para a tábua amparar.

10.10.17

Descalcei as alpergatas.

Conheci-os algures. Numa distância que não tem tempo, contado ou pensado. Valeram-nos as prosas dilatadas, as janelas de sacada largas, o sol em brasa ou as noites bem regadas. Não cabe nesta jornada nem um soluço de pausa. Lembro-me dos pés descalços, das peles douradas, dos cabelos húmidos e dos olhos arregalados. Parece conto, veste-se de fábula. É antes uma verdade abençoada. Guardo os amores de perder a alma, as paixões de ferver o sangue, os jeitos amancebados com os gestos e as desilusões de comer a carne. Parece exagero de puto iludido, mas não é senão delicadezas de um tempo detido pelas exigências. Éramos um tudo e um tanto mais. Atirávamos ao ar, à sorte e ao mar. Puritanismos ao longe, fingíamos adiante do nosso presente. Recusando não experimentar. Era forte, era pressa. Primeiro testar, depois atestar. Ficou-nos a amizade de todo o tempo. A simbiose do pensamento e da sinceridade. Os jogos atravessados, os copos levantados, as noites que não zangavam os ponteiros, a praia com cheiros bons e mergulhos conversados. Conheci-os algures, em espaços e datas diferentes. Trago-os desde longe. E aperalto-os com adjectivos, partilhas e sentimentos genuínos. Efusivos e, admito, um pouco floreados. Mas não minto. Nem tagarelo em vão. Eles hão-de rir, gargalhar e levar as cabeças atrás, enquanto tomamos uma bebida da moda ou uma cerveja barata. Mas é certo, hão-de devolver-me na mesma medida, mesmo que entre dentes. As mensagens partilhadas são autênticas e irreflectidas homenagens. Conheci-os algures. Numa cronologia sem constrangimentos. Crescemos. Ainda voltamos às prosas dilatadas, às janelas de sacada largas, ao sol em brasa ou às noites bem regadas. Com o mesmo entusiasmo, com menos aflição e outras idades. Roubamo-nos nestes pormenores. E somos tudo e um tanto mais. Ainda somos tudo, ainda esperamos um pouco mais. O verão a fazer das suas, na época e no ano inteiro.

9.10.17

Conservar em tempos de mudança.

Logo petiz, apressava-me a escutar as conversas que sobrevoavam o meu ambiente. As que importavam aos meus. Com aqueles trajes aperaltados que a minha mãe preferia colocar-me. Os sapatos impecavelmente limpos, as meias subidas. A camisa com o quadriculado nos mesmos tons. A malha lisa e composta logo por cima. O cabelo excessivamente liso e penteado. Os olhos grados, os ouvidos atentos. Se não me falha a memória, um relógio no pulso. Já na altura, no pulso que hoje se impõe. Não servia para coisa alguma, bem se percebe. No fundo, já denunciava quão beto e polido havia de me conhecer. E sentava-me como manda a lei, por ordem da minha imaginação, numa cadeira privilegiada ou num sofá estratégico. Jamais furtivamente, que a impaciência fazia-me chegar de igual para igual. Como se fosse, alguma vez, possível. Mas devolviam-me, quando não me impunham outros afazeres, a decência de ter lugar. E deliciava-me com o baile de prosa que por ali acontecia. A política exaltava os discursos, o futebol animava os convivas, os vinhos e as suas texturas amenizavam os saberes, o trabalho e os seus reveses impunham-se em todo o tempo e o mundo inteiro guardava lugar ali. E eu inundado pelo fascínio. Absorto, não poucas vezes, pela desinformação e desconhecimento característicos da idade. Mas fazia sentido. E quando assim é, fica o calor de experimentar. O tempo passa, e confiando nele, nem guardamos as contas de o ver seguir. E, volvido, vejo-me na cadeira de outrora ou no sofá confortável. Crescido, ainda com os olhos grados e os ouvidos atentos. O relógio com as horas certas. Os sapatos limpos, que podem ser os ténis mais inusitados e os menos preferidos de quem vê. O cabelo com outro preceito. E a mesma convicção de que quero fazer parte. Agora eloquente e escutado. Espero que igualmente polido, menos beto. Mantenho o amor e o interesse. Pelos meus, pelas palavras dos meus. Com a hombridade de me fazer presente e assumir que vou mudar. E estar preparado para ver o espanto e o amor a condicionar os gestos, as palavras. Vou mudar. E não posso oferecer garantias de que para melhor. Mudei e não consigo explicar, senão porque me custava mais não arriscar. Que me restem sempre estas pessoas, os seus discursos longos, a sala com os melhores assentos. E a necessidade desmedida de os querer ver, escutar e sentir.

17.7.17

Um sumário dos costumes.

No mesmo dia em que vi um festejo à janela, falaram-me sobre casamentos. Parece desconexo, coisa pouca. Mas não é. Trago a mochila – por demais elogiada - sobre as costas, lá dentro um tudo de coisas. Profissionais, pessoais. Ainda uma dor rasa aqui e uma pontada ali. A idade come-nos a ideia de infinidade. Vão rir-se de mim se verbalizar isto. Com a minha idade, numa versão avô sabichão e fatigado. Ouvir deve ser bem mais tedioso do que arquitectado nesta cabeça. Larguei-me na insanidade de não estar contactável. Perguntam-me o século em que habito. Respondo com palavras e pontuo com um sorriso. É sentido, não é mentira. É um desgoverno como qualquer outro. Praguejam as mais variadas razões para inverter a questão. E, assumo, sequer ouvi uma. Retive nenhuma. Mas gosto de livros, se possível de lê-los. Gosto de escrever, se possível à mão. Gosto de ouvir, se possível os que me acrescentam. Nesta balança improvisada, deixo à consideração o movimento das decisões. Mas volto, aqui sentado, ao sábado passado. Lá atrás, naquela rua que acompanhou o meu passo, estavam duas pessoas numa varanda bonita. Um prédio relho, nada descuidado, todo tratado. As paredes de um rosa imaculado, as portas e portadas largas e num verde cuidado. O mesmo tom dos ferros que resguardam as varandas curtas. Numa delas estavam flores, flores pequenas e pendulares. Atrás, um casal que ria em sintonia. Ele cerrava os olhos, ela puxava a cabeça para trás e levantava um braço que desaguava numa mão que carregava um ramo. Sobre a calçada, de cabeças levadas à janela, estavam pessoas. Um pequeno grupo. Aplaudiam e lançavam pétalas ao ar e pequenos papéis num prata brilhante. A sério, aconteceu. E pareciam felizes. A rua aguardou as comemorações. Ninguém avançou o passo ou recuou a posição. Ainda me dizem que os casamentos não são deste tempo. Não sei se acredito. Ela passeava um longo e branco vestido. Ele um fraque negro. Os convivas trajavam bonitas peças. As flores por todo o lado. Nem as pétalas faltaram. Não sei se acredito. Mas corrobora a minha versão. Os tempos são como as modas. Reciclam-se e cada um serve o que lhe aprouver. Felicidades.

12.6.17

Marchas (im)populares.

Tenho andado muito. E a pé. Sobre a calçada portuguesa, toda bonita, toda descalça. Sobre a madeira antiga, em linhas estendida, rezingona como só o tempo permite. Sob o sol mais picante, na sombra de um espaço bonito também. Não esqueço os meus óculos de sol de todo o tempo. A mochila com um ar descomprometido faz-se companhia. Tem a cor certa e o tecido combina – inventei agora, mas juro que não é mentira. Só este mês, num espaço curto, cancelei duas viagens. Uma dentro de portas, outra fora. Perdi alguns dias de partilha com os convivas habituais. No fim-de-semana que acabou, foram dias de veraneio num Alentejo que é saudade. E que não presenciei. Foram as muitas fotografias, vídeos e ligações do festival de música que aconteceu a norte, e que iam chegando num enxurro sem classificação. E que não visitei. Nesta azáfama, nestes passos que não conto, mas que os sei muitos, vislumbro muita gente. Eles e elas cuja cútis avermelha com os primeiros raios de sol, de máquina fotográfica a pender do pescoço. Com chapéus dignos do mais alucinado safari. Os homens com a tez escurecida e franzida pela força das maleitas do sol, a carregar cabos, colunas gigantes, escadotes e tábuas. Fazem de uma qualquer rua, um palco a céu aberto. É o tempo das festas, do vinho na caneca de barro, do cheiro que impregna tudo e todos. Das ruas feitas corredores de animação. O microfone parece já montado no lugar certo. Sem voz nem corpo. Os mesmos homens, gastos da trabalheira, deixam-se sossegar alguns minutos, sentados no poial de uma porta larga, no fresco de uma brisa que, de quando em vez, deixa-se sentir. Tocam-me, sem intento, no ombro e pedem-me desculpas num inglês de praia. Era uma habitante da terra equivocado. Devolvo um não faz mal, no meu português de sempre. Chego ao destino, quem me apresenta fá-lo dizendo o meu nome completo. Sorriem-me e, uma vez mais, perguntam-me se sou familiar do doutor com o mesmo nome. Repito-me e de sorriso no lugar certo, nego. Não sou. Mas tenho andado muito. A pé e de olhos atentos. Se quer saber.

31.5.17

Singular.

Desde petiz que sei que sou um privilegiado. Porque o sinto, porque o entendo, porque o vivo, porque mo dizem. Os meus, em tempo algum, o fizeram em jeito de atestado passado. Ou por meio de longos discursos. Antes em conversas trivialmente assertivas. Ou em acções dignas e saborosas. Às vezes menos, mais agrestes e azedas. Como tudo aquilo que se prende com a vida. No fundo, funcionou assim e ainda traz esses jeitos. Um barómetro inexistente fisicamente, mas profundamente presente. Porventura, todos a moldar a minha posição sobre algumas posturas. Não me apelido de intransigente, mas habito lá perto um par de vezes. Não respondo sempre – raramente - com a mesma pronúncia, mas guardo cautela perante alguns “delitos” (com as devidas comas; nada de superior) que me dirigem. Comigo não funciona o falso testemunho, a mão leve ou a boca fraca. Em que circunstância e sob que justificação for. Só porque embeleza o quadro ou varre para debaixo do tapete a sujidade dos actos. Não tolero, pese embora, algumas vezes me finja super blasé. Funciona, não desminto. E devolvem-me sorrisos, nada bonitos, mas bem ardilosos. E os dias seguem. Como deve e tem de ser. Desde puto que sou conhecedor daquilo que me envolve. Desde logo, na minha família, na minha casa, nos meus amigos, até nos conhecidos. Essa avaliação não guarda números. Sentes, mesmo que enquanto o vivas não saibas. Acumulas até chegar o entendimento. Nesta medida, cabem ainda alguns bens materiais, que não sendo fundamentais, contribuem para o bem-estar, para a vida mais leve e despreocupada. Ser-se privilegiado não é uma definição, é uma condição. E, mesmo assim, parece-me que os parâmetros mudam consoante o proprietário – perdoem-me a expressão, mas nada é eterno. Ser é tão diferente de parecer. E eu, em nada diferente, sou muitas coisas que não deixo parecer e pareço outras tantas que não deixo acontecer. A dada altura reduz-se a importância a zero. Ao vazio. Que é como deve estar. Sequer me belisca que me vejam altivo e arrogante, quando não pretendo outra verdade. Sequer me atenta que me vejam de piada fácil, riso repetido ou discurso menos moderado, quando é essa a minha sinceridade. Ainda que me chamem privilegiado quando olham de fora, sem autoridade, a olho nu, pelo que ofereço no correr dos dias. Desde petiz que sei que sou um privilegiado. Porque o sinto, porque o entendo, porque o vivo, porque mo dizem. Mas em instante algum recorro ao dinheiro quando penso nisso. A inteligência dos afectos suplanta tudo. E não está à venda. Ou nasces com ela ou encontra-la numa esquina mais adiante. Caso contrário, é um jogo perdido. Saiu-me a sorte maior, sou um privilegiado desde o primeiro minuto.

30.5.17

Prerrogativa de alguns.

A vista condiz com o balão de gin que tenho à minha frente. A companhia também. Somos três à espera do quarto elemento. Todos virados para o assombro que pode ser um lugar aos pés de alguém. A altura não debota as cores, antes dá-lhes vida, afina os traços e confere-lhes rigor. O mar parece mais azul, o pouco casario finge-se imaculado. O azul vai bem com tudo (nota de redacção: sem qualquer referência clubista associada). Aqui não é excepção. Daqui não fugimos à ilusão. Perpetramos o sossego de não ir para além da prosa. Esta manhã, logo cedo, uma cara amiga gabou-me os ténis – na verdade, não sei o nome que têm, não são ténis, não são alpergatas, porventura um híbrido do calçado. Tipicamente veranais. Ao final da manhã, já havia esgotado um tanto do que me esperava. A tarde foi um soluço dos dias e um conhecido falou-me do meu bom ar. Agora, com a tarde a fazer-se velha, deleitado com a companhia destes amigos. Já nem faço referência à vista. Que há-de estar sempre ali, assim lhe seja feita justiça. Aqui, ao redor das bebidas bem temperadas, com o quarto elemento já na teia, lembrámos como algumas conversas já nos maçam. Como redefinimos o foco, a direcção do que nos acrescenta e do que já não nos sustenta. Noutros tempos, talvez menos dotados de filtro. Mais reveladores de uma imaturidade que não sendo flagrante, sobrevoava-nos. Temos tempo para lembrar que o Benfica fez-se rei da época e também veste encarnado. A última, ideia de um beto que não nega as raízes. Do berço cheio de modos de peralta e do futebol dos vermelhos. Nele, entre risadas, assenta-lhe bem o encarnado. Discutimos a influência dos outros nas acções de cada um. E do quão tardo pode ser embarcar nessa rota. Enfim, a tagarelice de sempre. Com muita carolice à mistura. Enquanto isto, o mundo ao redor não ferve tanto na banda das coisas boas. Mas ao nosso lado, duas belas jovens trocam fios de flores miudinhas. Cruzam as mãos e um beijo singelo. Nem tudo está errado. Quando no meio de tudo isto, ainda há quem escolha viver.