15.9.16

Em diferido. #53

A calçada contada - Chegada a vacância que do verão conhecemos, solta-se um ai de pena. Guardam-se os calções listados, as Paez que fizeram a estação. Logo as ruas ganham ares de senhora trabalhadora, menina estudante de trabalhos pesados e catraia desobediente. Senhorial fica o ar de quem as vê passar, cá em cima a tomar algo, lá em baixo na esplanada da moda bebericando qualquer imitador do estrangeiro. Incluo-me nessa estirpe enviesada que se deixa ficar e a ver passar. Se quisermos, numa de descoberta do alheio, incluo-me, igualmente, nos que envergam uns calções listados e, de quando em vez, umas Paez da moda com ares de beto. Dos que lá vão, entre um pé, depois outro, enfrentando a calçada desregulada da cidade, vou conhecendo as suas estórias, algumas pelo menos. Senhora pequena de curva acentuada, mulher de corpo rijo e altura de gigante. De braço dado, entrelaçado. Vão acenando para esta e para aquele, gente da rotina que se vai cruzando. Daquela boca um pouco desajeitada, com menos dentes, quase nenhuns, saem muitas verdades. Trabalhou toda a vida, avança com a cabeça baixa rua fora. Leva no braço direito a amiga de todas as manhãs. A mamã leva à escola, deixa soltar logo depois de um sorriso rasgado, sem vergonha dos dentes que já não estão lá. Que, de resto, lhe valeram a alcunha que carrega nos dias de hoje. No mesmo saco, carrega as dores da idade, a rara flexibilidade e o peso do desgosto. Morreu-lhe o marido, cedo e fugazmente, cedo demais, insiste ela. Ficaram os filhos que não lhe olham no rosto há tempo demais. Um neto que foge da calçada se a encontrar. Vou guardar o resto, que não me obrigo a desvendar a intimidade de quem partilha, desinteressadamente, o que traça as suas carnes, os ossos velhos e, mais importante, a psique. Essa, motor que é fundamental e que se abastecesse na partilha. Que tire férias o verão. Sem prejuízo, havemos de a ele voltar.

5.9.16

Em tempo de calor.

A noite foi longa, quente como o verão de memória latente. Ouvi música contente, disposta e digna do ambiente. Encostei-me na cadeira da época, profunda obra de design, ouvi estórias e lembrei-me das ausências. Rodeado por alguns dos meus, uns recém-chegados à verdade da amizade. Tomei bebidas frescas, recusei a cigarrilha oferecida e não perdi a bonita vista. O calor acontece e favorece. A noite fez-se extensa, talhada como só o verão é capaz. Não fugi, antes pelo contrário, dos relatos entusiasmados. Nessa frenética prosa, eles foram os medalhados. Conhecem a distância como o sustento diário da relação. Ela é divertida, de sorriso rasgado e gesticula com bastante facilidade. Ele embarca na animação, tem jeito de intelectual, é sóbrio e fala com a razão. Lado a lado resultam num simpático quadro. Este ainda é um período de relações, como já havia pensado. Início, fim e recomeço. Paulatinamente, a convivência surge. Ameaçam ficar nesta moldura para sempre. Entre viagens felizes e quilómetros incontáveis. Não canto uma canção italiana, não porque não soe melhor, mas para não desdenhar o amor. Mas remeto-me ao silêncio quando o tema é o tempo e o sentimento. Logo este, à tua espera na primeira esquina ou na manhã seguinte.

22.8.16

Poesia dita e um pacote de leite.

Prendeu-o, há coisa de uma ou duas semanas, uma voz doce, simpática, harmoniosa e cúmplice. Guardou-a assim, pelo menos. Não fosse o ontem, e avançava uma mão cheia de dúvidas. Assim, conhecendo este tipo, que é meu amigo faz muito tempo e a sua longa vocação para paixões, paixonetas e ambas misturadas com o acaso, dou-lhe crédito. E juntou à voz sedutora, a poesia e um jardim. Parece literatura, sequer lembrei o episódio do supermercado biológico. Parece literatura, mas é tentação em tempos do agora, sob um calor típico e um verão que oferece tempo. Imagino-o, pois foi assim que me fez chegar o acontecimento, sentado na relva de um jardim composto, envolvido por gente, garantidamente bem mais interessada do que ele em ouvir o que haveria de se seguir. Atento o suficiente, ia trocando mensagens. Fora, algures entre a mensagem recebida e a resposta sôfrega, que há-de ter-se feito magia. - Sugeria umas teclas ou umas cordas para acompanhar - Vem de lá, do que me permito pensar ser um palco sem ornatos nem enfeites, apenas uma base a suportar uma jovem mulher hirta recitando, a voz. Aqui, já o telemóvel havia perdido terreno. Focou-se na silhueta, na voz e, não esmorecendo, nas palavras. No íntimo, ia cogitando donde é que se lembrava daquele tom doce. Parece que a jovem partilhou algumas composições poéticas. Umas da sua autoria, outras de autores nacionais e internacionais altamente conhecidos. Tão breve, quanto possível, uma vez que se lhe seguiam outros. Antes da tarde de poesia chegar ao fim, eis que se lhe assoma na memória, a jovem e um pacote de leite. Impulsivo, dirigiu-se à jovem senhora, cumprimentou-a, deu-lhe os sentidos parabéns e apresentou-se. Qualquer coisa como, “G, o tipo do leite”. Ela deve ter devolvido um sorriso e, garante ele, lembrou-se. Sem vergonha, quis mais do que a árdua tarefa de a encontrar no Facebook. Pediu-lhe um contacto. Queria aprender sobre estrofes, versos e culinária biológica. Safou-se e, segundo actualizações recentes, deu frutos. O destino é um paraíso entre profanos. Se não voltam, são uns meninos. Há verões assim. Cujo amor brota no meio de poesia e leite de arroz.

11.8.16

Em diferido. #52

Fumo cheio de vícios - Sem tino, marcam as vidas alheias. Destroem a terra de todos. Consomem as almas em desespero. Corroem o verde e a paisagem. Ameaçam as casas vizinhas. Ruins, agem sem pingo de piedade ou respeito. São ausentes de humanidade, homens piores. São miseravelmente piores. Espalham o terror nos corpos em luta. Instigam a destruição. Pior, convidam a morte. Gente que faz pior que os azares da natureza. Que os potencia. Este ano não é excepção. A maioria dos incêndios que, até agora, vêm deflagrando no nosso país é, em repetição, obra de despeitados. De gente louca. De gente inqualificável, de tão má. Os incêndios, este ano, voltaram a matar. Entre todos, o fogo é a extensão de alguém. Tão ladrão é quem rouba, como quem fica a ver. Uma vez mais, reforça a miséria e a tristeza. E recuso entender. Recuso, veementemente, ver para além dos estragos. Para além da fatalidade. Apenas, porque não são homens, não são pessoas. São reles miseráveis.

8.8.16

Entre o auge da tarde e o final da mesma.

O ambiente é de férias. Um paraíso tão próximo. As palmeiras quase que cedem à calma, nada balançam, têm o tom viçoso, envolvem o espaço, compõem a vista e deixam imaginar o resto. Vêem-se as ondas claras lá ao fundo, a espuma a tecer borbulhas. As espreguiçadeiras cheias, as cores do verão salpicadas pelo areal. Aqui, sentados num lugar bonito, numa mesa privilegiada, ladeados pela piscina, envolvidos pelo frenesim de quem trabalha contrastando com o sossego de quem descansa. As mesas, tal como a piscina, estão lotadas. Na água, entre mergulhos desgovernados, salpicos desorientados, saltos invertidos, braçadas e braçadeiras, óculos de mergulhador e bóias de diversão, risadas fáceis e chamadas de atenção, estão novos e velhos. Em ameno convívio veranil. Ouvem-se línguas diferentes, sotaques também. Não falham os fatos de banho, os biquínis, os calções e, claro, os óculos de sol. Alguns arriscam numa indumentária mais formal, impecáveis ao fim da tarde. Servem-nos uma bebida fresca e bastante agradável, outros entreténs a seguir. Falámos tanto, mas não esgotámos prosa. Ao lado, uma senhora de honrosa idade joga as mãos à cabeça loira sempre que o neto escapa dos braços do avô e joga-se sem medida para a água. Depois, duas jovens partilham outra mesa, não se olham, não trocam uma palavra e fumam umas cigarrilhas e, parece, passam assim a tarde, entre uma aspiração e outra. Chega ao recinto um senhor cuja espécie de tanga reduzida parece trazer a via láctea em exposição, a camisa aberta e solta, chama a atenção. Segue caminho, airoso e divertido. De gente comum também se enche a zona. Em tempo algum são esquecidas as fotografias para o Facebook e Instagram. Os vídeos animados para o Snapchat, a anunciar que são felizes no verão. Fomos embora, dali a nada aconteceria um jantar demorado, com gente que nos importa. Não sem antes me gabarem a camisa. Não faço questão, mas não digo que não.

2.8.16

Ataviar o verão com a bonita canção.

Solta uns vocalizes. Faz os típicos exercícios de voz, sem apontar notas ou palavras. Antecipa a letra, a música e o volume. Há-de chegar Aretha Franklin. É impossível tocar-lhe, mas vem uma interpretação entusiasmada e sentida. Gabo as vozes certas, os tempos sabidos de memória, a música e o compasso na ponta do entendimento. O compromisso certeiro entre o querer muito e o fazer melhor. Fico a assistir, meio embevecido, quando as vozes me atraem. A voz colocada, o microfone mesmo à frente, uns tipos a tocar, uns amigos a sentir e a comunhão acontece. Neste cantinho um tanto escurecido, acontece fazer-se, com empenho, música de qualidade. Os instrumentos são conduzidos de feição, ouvem-se os primeiros acordes, aludem a outros nomes e compõem a exposição. Não é mentira se garantir que gozo do prazer de ter grandes amigos, bem mais, tenho o gosto de ter amigos muito talentosos. No verão, com Agosto a começar, funciona largar todo e cada pedaço de areia, de sol a queimar e das ondas a relaxar, para sentar algures, ouvir cantar e tocar. Aplaudir e felicitar no final é um pertinente ponto final. Logo depois, há verão outra vez. A lamentar só o facto de não ser um dos dotados. Assim, aceito um copo e mais uma rodada de calor.

25.7.16

Bons amigos (bons).

Caravaggio, cuja origem do nome, embora escusa de relatos maiores, é um empolgante regresso às origens. Já lá vão uns anos bons desde que mo apresentaram. Escrevo como penso. Foi um amigo bom, daqueles meio sacanas e atrevidos, que guardam no intelecto e no geral, bem mais do que o azougar nas horas vagas. Do que acautelar os instintos na sede da pele. Que, não vamos retirar o crédito devido, também é importante. Não será, em tempo algum, de somenos relevância. Mas voltemos ao artista, ao outro. A Caravaggio e à sua obra. No passado, quando eu era bastante jovem, miúdo até, contou-me o seu percurso, influência e irreverência natural. Esse amigo, em abono da verdade, amigo do meu pai, depois por convivência, amigo da minha mãe e, por inevitabilidade do destino, meu bom amigo. Eu, um petiz interessado, ele um homem sabedor, conhecedor do mundo e das voltas que dava. Levava Portugal num bolso, como fazia por repetir e voltava com o mundo no peito. Arranjei-lhe, na imaginação, um peito que não tinha fim. A altura e robustez do tipo ajudavam. Paulatinamente, fora revelando-me mais pormenores, outras obras. Ganhei, se não for exagero, um certo fascínio. Pelo homem e pelo artista, pelas obras igualmente. A enumeração serve a ambos. Ainda converso sem fim com este homem grande. Hoje de cabelo grisalho e dono das mais convincentes histórias. Cruza as pernas e esse pode ser o mote. Fora solteiro até tarde, casou por amor e ganhou. Só acrescentou. Hoje de corpo ainda vivaço, não pega num cigarro e dá corda aos ténis. Traz um livro na mala e esse pode ser o mote. Hoje ainda enche o bolso da nacionalidade que não esquece. Enche o peito de folgo, faz-se ao mundo e volta cheio. Esse pode ser o mote. Tal como Caravaggio fora lá atrás.