23.3.17

Adágio susceptível de discussão.

Finalmente, a carta nas minhas mãos. Já lá vão uns dias, sob um céu carregado, ameaçando com chuva para qualquer instante. Deixei o carro longe, vim pelas ruas da cidade. A calçada húmida. Um cão anda do avesso, parece à descoberta. Logo depois, o dono chama-o. Traz um lenço enrolado na cabeça e isso dá-lhe estilo. Espreitam umas madeixas de cabelo bem enroladas. As calças largas, com riscas desenhadas. Fuma e parece bem, ameno no passeio, capaz nos corredores da vida. Gabo sempre a verdade e o atrevimento de dar-lhe espaço. Prefiro-a à expectativa. Fez-me lembrar um tipo que conheci lá atrás. Era genuíno, testava os outros e refugiava-se nas drogas. Tanto, que vezes havia em que não sentia nada fisicamente, mesmo que o tentássemos esmurrar. Mas isso é garrulice para outras núpcias. Nas minhas mãos, por fim, a carta. Longas linhas de um recheio que já conhecia, uma tabela que justificava o resto. A internet aproximou-nos de tudo, chega sempre no imediato. A carta é a burocracia a fazer das suas, a formalidade dos actos. Guardei-a no bolso interior do trench coat. Disse-me a minha irmã o nome do dito e, por isso, não desminto. Tenho em espera umas ganas valentes. Que me vêm atiçando. Provocando no sentido da mudança. De promover a novidade. De afastar o repetido. A carta não mais foi do que a prova disso. Decisões, decisões e mais decisões. Hei-de tomar rumo. A ver vamos se o certo. Recusar hoje pode trazer frutos amanhã. Aceitar agora pode carregar maleitas no futuro. Absorto, insensível às solicitações, não garante soluções. Estejamos aperaltados e perfumados ou na simplicidade da rotina. Há espaço para ambas. E a verdade gosta disso. A expectativa dá-lhe honras de presidente.

22.3.17

Em diferido. #57

Bravo - Aquele gajo compôs uma autêntica diversidade de boas notas. Aquele gajo é descomprometido com tudo, desde sempre. Conheci-o há alguns anos, algures numa adolescência que ganha um certo tom de vedetismo. As calças daquela marca, os ténis da outra, ainda os pólos com fartura. E ele nada. Desmarcava-se disso com uma pinta sem igual. Talvez, porque nessa altura não me agradavam os pólos e as camisas aos quadrados, demo-nos bem. Embora, as tenha vestido algumas vezes e de feitio torcido, tão contrariado. E devo ter sido beto. Ou arraçado disso. Mas não importava. Como não importa. Valia a cabeça e a construção das conversas. A música que já era tão presente. Ouvíamos o som da altura, mas que já era passado. Apresentou-me um sem número de nomes que ainda hoje trago na minha lista de preferências. Volto sempre a ouvi-las, em todas as vezes que não me esqueço. Reencontro-me com as suas sugestões musicais bem mais amiúde do que com ele. Uma pena descomunal. Vive entre Cascais e Londres. Toca como só um gajo como ele consegue. Tem composições incríveis. Algumas não saem de casa. Este gajo ainda vai ser reconhecido, porque o melhor já é. Sem qualquer adorno dispensável. Continua a ser aquele gajo descomprometido. Fiel. Dispensa, ainda hoje, as camisas engomadas, as calças marcadas e os ténis. Há gajos do caraças.

21.3.17

Equilíbrio e harmonia nos seus componentes.

Só nos faltava mais tempo e que a mesa fosse redonda. Não dou espaço para questionar. Pois, em abono da verdade, não me restam justificações. Assomou-se-me a ideia de que as mesas redondas guardaram as melhores das tertúlias. Não será, factualmente, mentira, nem totalmente verdade. Por oposição, claro. Talvez, e especulo neste instante, a mesa redonda da sala de jantar da casa dos meus avós maternos me tenha feito guardar, à margem da história do mundo, esta ideia. Trago a vaga lembrança de deliciosas e demoradas conversas ao redor da mesma. A minha avó com o seu cabelo tão armado, o seu ar altivo e um nada rude, escondia a versão divertida, tamanha a preocupação em servir bem. O meu avô e os seus olhos claros, sempre mais ameno, disposto e a rede do convívio. Perdi tanto, que lastimo não ter estado lá mais cedo. O que me contaram será uma medida muito rasa do que, de facto, por lá aconteceu. Hoje é uma sala em silêncio. Com a mesa ao centro, as flores viçosas numa jarra. O quadro gigante numa parede e os outros nas restantes. A estante com peças com memória. Este domingo, a mesa estava lá – outra e noutro ambiente - comprida, de madeira pesada, por azulejos bonitos adornada. Sobre ela passou de um todo. A comida é a união. A bebida não perde terreno. Somos família. Aqui, poucos, mas exactos. A eloquência é característica e, sem atropelos (às vezes), levamos a nossa prosa adiante. A minha mãe, em alguns casos, teme que a minha avó – sempre à cabeceira – ruborize. Mas não há razão. Guardámos-lhe todo o respeito que nos merece. E, volvidos tantos anos, a avó é uma mulher bem mais liberta (ligeiramente) de obrigações de um protocolo que lhe faz sentido. Tem a cabeça arejada e ri dos devaneios de uma descendência que a quer viva.

20.3.17

Efeitos de um coração bom.

Tem as pernas cruzadas, sentado sobre a cadeira larga. De madeira e verga. Uns sapatos bonitos, castanhos, limpinhos, todos finos. As calças engomadas, beges, bem vincadas. A camisa de boa qualidade, num azul claro, num tom sincero. Uma malha escura, elegante, toda delicada. As meias espreitam por entre as calças e os sapatos. Lisas, sóbrias, nada coloridas, da nação dos sapatos. Como manda a lei. Lembra-lhe, a falta de vista ao perto, de trazer os óculos pendidos sobre o peito, ao nariz. Assim mesmo, à pontinha. Brinca com os olhos, na frente vê com a ajuda, para lá, olha com a vista despida. Pega no jornal que está sobre a mesa baixa, lê as gigantes da capa. Atesta o descrédito das palavras e dos actos. Demora-se na leitura habitual de fim-de-semana. Atento, deixa fugir aqui e acolá, algumas palavras, uma espécie de comentário do absurdo. A incompreensão a tomar-lhe as veias. Apoquentam-lhe as fragilidades deste terreno, da sociedade de todos. De cada um. Emergem as vivências de outras épocas. Enfim, termina a leitura. Fecha o jornal, dobra-o com vagar. Devolve-o à mesa. Tece um último comentário, garante que não compreende. Um balanço que entendo. Sugiro que procure outras leituras. Que não fique só pelas notícias. Com um sorriso típico de quem sabe que tem a resposta certa, responde-me que sim. Que não vivemos somente do semanário que ainda escreve assente na acção, tampouco do pasquim diário. Remata dizendo que voltou a Tolstói, e à sua “Ana Karenina”. Não fui capaz de suster o riso. Tem toda a razão. E leva vantagem. Que não leio como dantes, nem volto a Tolstói como me apetecia. Ficou definido que vai dar-mo, assim que termine a releitura. Ora, essa. Muito obrigado. Os grandes corações agem como se o espaço e o tempo fossem inexistentes. Queria ser uma ínfima parte. Garanti-lhe.

16.3.17

Distintos num dia de Março.

Surgem, logo depois do prédio antigo, de mãos dadas. Ela traz o sorriso bonito. Ele com o olhar sempre atento. Carregam, nas mãos enlaçadas e nos rostos harmoniosos, a comunhão entre a viagem feliz e a paixão. Deixei-me aventar. Denunciam ser turistas. O físico não desmente, as mochilas também não. Abordaram-me pedindo indicações. São escoceses e falam português. Com o sotaque do Brasil. A América do Sul foi poiso durante uma temporada. Tecem elogios largos à cidade, às pessoas disponíveis e à luz que não cessa. Prometem voltar, para matar as saudades do paladar. Garantem o regresso, por levarem na bagagem a sintonia do país. Agradeço-lhes as palavras bonitas e encaminho-os para o destino pretendido. Cruzar gente boa não tem qualificação. Ultrapassa qualquer cotação. Invisto no meu trajecto, pois já vou tarde. Cumprimento a senhora da ourivesaria, amiga de longa data da família. Pergunta-me pelos pais, pelas irmãs e, claro, pela avozinha. Vejo-a desgastada, com as mazelas que a idade causa. Lembra que a saúde é fraca, que o tempo passa e que me conhece deste tamanho – levou a mão o mais baixo que a coluna dorida lhe permitiu. É verdade, sim senhora. Diz-me que cresci bem e fiz-me um garboso rapaz. Sou fã assumido dos velhos, da sua posição e da palavra que entregam com outro gosto. Não esqueço o marido – já falecido - mas prefiro não trazer à memória. Pergunto pela filha, que a sei doente. Leva como Deus quer, respondeu. Foi aí que os olhos marejaram. Passei a mão pelo ombro, trocámos dois beijos e vim embora. Entravam duas clientes, que pelo bom dia percebi serem velhas conhecidas. Garantidamente, é nestas ocasiões que as minhas palavras são parcas. Não é que não as tenhas, é o respeito que todos os detentores de muita idade me merecem. Em suma, as pessoas boas deixam-me francamente sensibilizado.

15.3.17

Uma canção feita de razão.

Vinha de óculos escuros - uma oferta que vem de outros cenários, que me deixou feliz e que são, por estes dias, os meus preferidos - a rir-me para o miúdo que, passos à minha frente, exercitava a garganta, numa cantoria sem fim. Desconheço a autoria, mas deve ser um dos sucessos da actualidade infantil. Ao colo da que imagino ser a mãe, trauteava, ora com onomatopeias, ora com frases feitas. Os caracóis cheios de graça, num balanço certeiro com a passada da mãe. Segurava, firme e com confiança, um pequeno cavalo preso por um fio. Não guardemos dúvidas, os putos são o mais importante e interessante da sociedade. Logo, capazes de absorver o melhor que tenhamos para lhes dar. E o melhor, esperamos, é a sabedoria emocional que transformar-se-á nas ferramentas para que, um dia adulto, exercite os seus deveres e direitos com a harmonia necessária. Com o respeito que tanto falta. Pecamos sempre que ignoramos a responsabilidade que temos na educação e formação de um miúdo. Na atenção que lhe devemos. Não é preciso ter o nosso sangue, basta ser coabitante neste espaço que se quer socialmente saudável. Lastimo sempre que encontro pessoas que, num desgoverno de relação, avançam para a gravidez como o reduto da salvação. Ganhem juízo, apetece-me pedir-lhes. Uma amiga de longa data, hoje mais conhecida do que dona de outro estatuto, por força da distância física e do afastamento que a relação forçou de tudo e todos, está grávida. Esboça um sorriso e guarda o verbo animado na ponta da língua. Mas todos temem. A família agasta-se, os olhos estão pesados. Dir-se-ia que está num esforço suplementar para não deixar de tentar. É transversal. Dos elementos do topo à franja da base. E, restou-me, desejar-lhe o melhor e lembrar que estamos todos no lugar de sempre. Que seja a melhor das viagens.

14.3.17

Fadário que levou sumiço.

Pareço atarefado, mas é só o compromisso de não ceder ao enfado. Procuro, com os olhos, a chave. De outra forma não poderia ser, descansa no lugar de todos os dias. Desligo, num gesto automático, a luz da divisão. Espreito pela janela e espero que não chova. Pouso o tablet e agarro no relógio. Acomodo o cabelo e visto o casaco. O telemóvel numa mão, a tocar sem sossego, o número que prefiro ignorar. Volto lá mais tarde. Com a gestão exímia dos tempos. Na outra mão, alguns subscritos. Nunca são suficientes, tantos os que sabem o seu destino. Foi o mote, uma carta aguarda que a levante numa estação de correios. Adio, por falta de convicção. Venho, entre escassos passos e exacerbados actos, perdendo a convicção. É outra versão. De mim e das minhas expectativas. Porventura, noutra época bem mais empoladas, inocentes, felizes e garantidas. Hoje, mais realistas, assentes na certeza, funcionais e nada ficcionadas. Não esqueço a professora de Ciências que me gabava o cálculo certeiro e o raciocínio apurado. Vaticinou-me o destino. Lamento, cara professora, saiu furado. Entrei no comboio ao lado. Arrisco sempre na combustão improvável. Demora a acontecer. Mas não é longe para a sorte grande. A outra já tenho e é com ganas que guardo.